Hatshepsut: De “Madrasta Malvada” a Inovadora Esquecida do Egito

3

Durante séculos, Hatshepsut, uma das poucas mulheres a governar o antigo Egito como faraó, foi lembrada como uma usurpadora implacável. Os estudos modernos, no entanto, estão a reescrever a sua história: ela não era uma vilã, mas uma líder astuta cujo reinado trouxe prosperidade e florescimento artístico. O registo histórico, há muito moldado por reis posteriores ansiosos por apagar a sua memória, está finalmente a ser reexaminado.

A ascensão de uma mulher faraó

Hatshepsut chegou ao poder no século 15 a.C. através de um ousado jogo de poder. Como filha de Tutmés I, ela se casou com seu meio-irmão, Tutmés II. Quando ele morreu inesperadamente, ela assumiu o trono como regente de seu jovem enteado, Tutmés III. Em poucos anos, ela corajosamente se declarou faraó, governando o Egito por quase duas décadas. Para legitimar o seu reinado, Hatshepsut apresentou-se como um deus vivo – uma prática comum para os governantes egípcios – autodenominando-se “Senhor das Duas Terras”.

Esta não foi uma simples tomada de poder. Hatshepsut supervisionou um período de crescimento económico, encomendando ambiciosos projectos de construção (incluindo o magnífico complexo de templos em Deir el-Bahri) e revitalizando rotas comerciais. Seu reinado não foi marcado por conquistas ou guerras, mas por expansão cultural e prosperidade.

O Legado Danificado

Após a morte de Hatshepsut, foi feito um esforço sistemático para apagá-la da história. Estátuas foram destruídas, relevos desfigurados e seu nome removido dos registros oficiais. Durante décadas, os estudiosos presumiram que esta destruição foi ordenada por Tutmés III, movido pelo despeito ou pelo desejo de restaurar o domínio masculino tradicional.

A escala da profanação foi descoberta na década de 1920, quando os arqueólogos descobriram milhares de imagens destruídas da mulher faraó. Inicialmente, a brutalidade do ato reforçou a narrativa da vingança de Tutmés III.

Uma nova perspectiva

Pesquisas recentes, no entanto, sugerem uma história mais complexa. O egiptólogo Jun Yi Wong, num estudo publicado na Antiquity, reexaminou registos de escavações de décadas atrás, incluindo notas e fotografias não publicadas. Ele descobriu que os danos não foram tão imediatos como se pensava anteriormente, mas ocorreram durante um período de aproximadamente 25 anos após a morte de Hatshepsut.

Wong também argumenta que a destruição não foi tão completa como sugeriam relatos anteriores. Alguns dos monumentos de Hatshepsut foram deliberadamente deixados intactos, enquanto outros foram danificados de formas que sugerem motivos políticos e não puramente vingativos. Tutmés III pode ter procurado diminuir sua influência, não apagá-la completamente.

Por que isso é importante

A história de Hatshepsut revela quão facilmente a história pode ser manipulada. Durante séculos, suas ações foram consideradas vilãs porque a narrativa era controlada por aqueles que a seguiam. A recente reavaliação mostra que as lutas pelo poder conduzem frequentemente ao revisionismo histórico. Ao revisitar fontes primárias, os estudiosos estão a descobrir uma imagem mais matizada do reinado de Hatshepsut: ela não era uma madrasta perversa, mas uma governante capaz cujo legado foi injustamente manchado.

O esforço contínuo para compreender a história de Hatshepsut sublinha a importância de questionar narrativas estabelecidas e examinar eventos históricos através de múltiplas lentes. O seu caso serve como um lembrete de que mesmo nos tempos antigos, o poder, a política e a memória estavam profundamente interligados.